UBS DE R$ 1,5 MILHÃO EM CIANORTE VIRA ALVO DE DENÚNCIAS: SEIS MESES APÓS INAUGURAÇÃO, TETO APRESENTA RACHADURAS, INFILTRAÇÕES E PINTURA DETERIORADA
Entregue em 23 de abril pelo prefeito Marco Franzato como símbolo de modernização da saúde pública, a nova UBS da Vila 7 é alvo de reclamações de servidores e moradores. Fotografias encaminhadas ao BSB2 mostram danos aparentes em tetos e revestimentos. Denunciantes relatam goteiras, portas com defeitos, problemas de iluminação e ausência de farmácia. Afinal, quem fiscalizou a obra e quem vai responder pelos reparos?
Por Marcio Nolasco — Analista de Políticas Públicas | BSB2 — Bisbilhoteiro
Uma obra pública que custou R$ 1.536.277,71 aos cofres públicos deveria representar qualidade, segurança e durabilidade. Especialmente quando se trata de uma Unidade Básica de Saúde, construída para atender diariamente famílias, crianças, idosos e trabalhadores.

Mas o que deveria ser motivo de orgulho para os moradores da Vila 7, em Cianorte, transformou-se em motivo de indignação.
Inaugurada em 23 de abril de 2026, com discursos entusiasmados do prefeito Marco Franzato e da secretária municipal de Saúde, Shelly Miriam Fernandes Nogueira, a nova UBS apresenta, apenas seis meses depois, sinais visíveis de deterioração em partes de seu acabamento.
Fotografias encaminhadas ao BSB2 — Bisbilhoteiro mostram extensas áreas com fissuras, bolhas e desprendimento aparente de revestimento nos tetos. Servidores e moradores relatam que a água da chuva invade ambientes, escorre pelas paredes e ameaça móveis e equipamentos recém-adquiridos.
O cenário descrito pelos denunciantes é tão preocupante que permite uma comparação irônica: a UBS construída para cuidar da saúde da população estaria funcionando, em dias de chuva, quase como um aquário.
E a pergunta que não pode ficar sem resposta é simples: como uma obra entregue há apenas seis meses já apresenta problemas dessa natureza?

O que mostram as fotografias encaminhadas ao BSB2?
Imagens ilustrativas dos tipos de danos relatados. As fotografias originais encaminhadas à reportagem, exibidas na denúncia, mostram fissuras ramificadas, bolhas e alterações no revestimento do teto. A origem dos danos ainda depende de perícia técnica.
O material recebido pela reportagem apresenta superfícies com fissuras ramificadas, pintura aparentemente comprometida e regiões em que o acabamento parece estar se desprendendo.
Os registros são compatíveis com manifestações patológicas em revestimentos, que podem decorrer de umidade, falhas de aplicação, movimentação de materiais ou outros problemas construtivos.
Veja imagens de 23/10/2026, enviadas por servidor da saúde:
Entretanto, apenas uma avaliação técnica presencial poderá determinar a origem das manifestações, sua extensão e se existe comprometimento da segurança do prédio.
A gravidade do relato exige investigação, sobretudo porque os servidores afirmam que os problemas não são novos e já teriam sido comunicados a representantes do poder público.
Servidores denunciam: "Chove dentro da UBS"
A reclamação chegou ao portal por meio de um formulário encaminhado por um morador da Vila 7, acompanhada de registros fotográficos.
O denunciante convida a equipe jornalística a conhecer pessoalmente a situação e afirma que as dificuldades vêm sendo enfrentadas por profissionais que trabalham na unidade.
Segundo o relato, os problemas incluem:
Goteiras e entrada de água da chuva em diferentes ambientes.
Portas que não fecham ou não trancam adequadamente.
Pintura de tetos e paredes deteriorada, especialmente na sala dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS).
Postes de iluminação que, segundo o denunciante, não funcionam desde a inauguração.
Móveis novos supostamente prejudicados pela umidade.
Equipes de manutenção que teriam comparecido sem ferramentas ou equipamentos suficientes.
Falta de materiais básicos de atendimento até a semana anterior à denúncia.
Ausência de farmácia em funcionamento na nova unidade, conforme os relatos recebidos.
O denunciante também afirma que vereadores, assessores e representantes da Prefeitura já teriam conhecimento das ocorrências, sem que uma solução definitiva fosse apresentada.
Em determinado trecho, questiona diretamente:
"O prédio não tem garantia, o pessoal da engenharia não fiscalizou a construção? Vai acontecer a mesma coisa com o Belas Artes?"
É uma manifestação que ultrapassa o simples descontentamento de um cidadão.
Estamos diante de questionamentos sobre a qualidade de uma construção pública, a eficiência da fiscalização municipal e a utilização de recursos que pertencem à população.
Do discurso de inauguração à realidade denunciada: o que aconteceu em seis meses?
Em 24 de abril de 2026, a própria Prefeitura publicou reportagem institucional celebrando a inauguração da UBS, realizada no dia anterior.
Segundo a comunicação oficial, a nova unidade substituiria as limitações físicas do endereço antigo, na Avenida Maranhão, oferecendo uma estrutura mais moderna e condições superiores de atendimento.
Veja vídeo de 23/10/2026, enviadas por servidor da saúde:
Na solenidade, o prefeito Marco Franzato afirmou:
"Não estamos entregando apenas alvenaria, mas um espaço de acolhimento onde cada cidadão será tratado com o respeito que merece."
A secretária Shelly Miriam Fernandes Nogueira também destacou o avanço representado pela nova estrutura:
"Estamos entregando capacidade técnica ampliada. É um salto na qualidade da atenção primária que reflete diretamente na prevenção de doenças em nossa comunidade."
Passados seis meses, a situação apresentada pelos denunciantes contrasta com o entusiasmo das declarações oficiais.
De que adianta anunciar conforto, modernidade e atendimento humanizado quando os profissionais relatam água entrando pelo teto, portas sem funcionamento adequado e deterioração precoce do revestimento?
Uma inauguração não pode ser tratada como a conclusão definitiva da responsabilidade administrativa. A obrigação de entregar uma obra de qualidade permanece depois que as autoridades deixam o palanque e as câmeras são desligadas.

R$ 1,5 milhão de investimento: onde foi parar o controle de qualidade?
QUADRO DEMONSTRATIVO — DADOS OFICIAIS DA OBRA
R$ 1.536.277,71
Investimento total informado pela Prefeitura na entrega:
Informação | Dados |
Unidade | UBS Vila 7 |
Inauguração | 23/04/2026 |
Área construída | Aproximadamente 360 m² |
Classificação | Tipo II |
Recursos estaduais anunciados | R$ 1,2 milhão |
Contrapartida municipal anunciada | R$ 326 mil |
Empresa executora anunciada no início da obra | Serrano Construtora Ltda. |
Fonte: comunicados oficiais da Prefeitura de Cianorte, publicados em janeiro de 2025 e abril de 2026. Valores das fontes de financiamento apresentados de forma arredondada pela administração.
O anúncio oficial feito em janeiro de 2025 identificava a Serrano Construtora Ltda, como responsável pela execução da obra. Não foi possível verificar, nesta apuração, se houve alterações contratuais posteriores ou qual foi o conteúdo dos termos de recebimento e fiscalização.
A divulgação desses documentos é fundamental.
O dinheiro público não pode financiar uma construção cuja aparência, poucos meses depois de inaugurada, provoque dúvidas sobre os serviços executados.
É necessário identificar se houve falhas de impermeabilização, cobertura, instalações, acabamento ou manutenção e, principalmente, se a Prefeitura adotou os procedimentos necessários para fiscalizar e exigir as correções.
Fiscalização de engenharia não é formalidade burocrática. É uma obrigação de proteger o patrimônio público.
Se os problemas decorrerem de falhas construtivas, será necessário verificar as responsabilidades contratuais e as providências de garantia cabíveis.
Uma UBS moderna no papel, mas com reclamações até sobre a farmácia
A estrutura anunciada pela Prefeitura prevê recepção para 30 pessoas, quatro consultórios médicos, consultório odontológico com duas cadeiras e ambientes destinados a vacinação, inalação, curativos e aplicação de medicamentos.
O projeto também contemplava espaço para estocagem de medicamentos.
Entretanto, segundo os denunciantes, a nova unidade ainda não conta com farmácia em funcionamento.
Esse ponto exige esclarecimento imediato da Secretaria Municipal de Saúde: havia previsão de dispensação de medicamentos diretamente na UBS? Em caso positivo, por que o serviço ainda não estaria disponível? Caso não estivesse previsto, qual é a estrutura responsável por atender os moradores da Vila 7?
Também merece investigação o relato sobre ausência de materiais básicos de atendimento até a semana anterior.
Uma unidade de saúde não pode ser avaliada apenas pela quantidade de consultórios ou pela modernidade de sua fachada.
Seu verdadeiro valor está na capacidade de oferecer assistência adequada, com profissionais, equipamentos, materiais e condições dignas de trabalho.
Quem recebeu a obra? Quem fiscalizou? E quem vai pagar a conta?
A denúncia abre uma série de questionamentos que precisam ser respondidos pelo Poder Executivo de Cianorte.
Pergunta à Prefeitura | Esclarecimento necessário |
1. Quem foi o responsável técnico pela fiscalização? | Identificação dos fiscais e registros de acompanhamento |
2. A obra já foi recebida definitivamente? | Termos de recebimento provisório e definitivo |
3. A construtora foi notificada? | Datas, notificações e providências |
4. Existe laudo sobre as infiltrações? | Diagnóstico técnico e riscos identificados |
5. Qual é a garantia contratual aplicável? | Prazos e responsabilidades por reparos |
6. Quem custeará as correções? | Empresa, Município ou outra fonte |
7. Por que as portas e a iluminação apresentariam defeitos? | Situação atual e cronograma de manutenção |
8. Por que não haveria farmácia? | Previsão de funcionamento e atendimento aos usuários |
9. Houve danos a móveis e equipamentos? | Levantamento patrimonial e prejuízos |
10. Outras UBSs recém-construídas foram vistoriadas? | Medidas preventivas e resultados |
Essas respostas devem ser acompanhadas, sempre que possível, de documentos, relatórios técnicos e prazos de solução.
Não basta informar genericamente que uma equipe de manutenção será enviada ao local.
O que a população precisa saber é qual problema foi identificado, quem é responsável por resolvê-lo e quando a unidade estará em condições adequadas de utilização.
E a Câmara Municipal? Onde está a fiscalização dos vereadores?
O denunciante afirma que vereadores e assessores já teriam visitado o imóvel para conhecer os problemas.
Se isso for confirmado, será importante esclarecer quais providências foram adotadas depois dessas visitas.
A Câmara Municipal tem instrumentos legais para fiscalizar a aplicação dos recursos públicos, solicitar documentos e cobrar explicações do Executivo.
A situação da UBS da Vila 7 merece uma visita técnica acompanhada de profissionais qualificados, com documentação fotográfica e relatório formal sobre as condições da edificação.
Também cabe verificar se os defeitos relatados estão ocorrendo em outras unidades novas ou recentemente reformadas.
O cidadão não pode ser obrigado a transformar reclamações em uma peregrinação interminável entre secretarias, gabinetes e departamentos.
O alerta para a UBS do Belas Artes
Outro ponto levantado na denúncia diz respeito à qualidade de outras obras de saúde executadas ou acompanhadas pela administração municipal.
O morador pergunta se problemas semelhantes poderão acontecer com a unidade do Belas Artes.
Essa preocupação é legítima, mas não significa que exista falha naquela obra.
O caso da Vila 7, por si só, já justifica uma revisão dos procedimentos de fiscalização, testes de estanqueidade, verificação de coberturas, conferência de instalações e recebimento de unidades recém-construídas.
É muito mais barato identificar e corrigir defeitos antes da inauguração do que lidar posteriormente com ambientes deteriorados, equipamentos danificados e serviços prejudicados.
Editorial BSB2: saúde pública não se faz apenas com placas de inauguração
O caso da UBS da Vila 7 evidencia uma diferença fundamental entre anunciar uma obra e garantir a qualidade do serviço entregue.
Inaugurar prédios gera fotografias, discursos, publicações institucionais e visibilidade política.
Mas o verdadeiro teste de uma administração pública começa quando a população passa a utilizar aquilo que foi inaugurado.
Uma UBS não pode ser considerada um sucesso administrativo apenas porque possui fachada nova, consultórios equipados e uma placa com o valor do investimento.
Se as denúncias forem confirmadas, a gestão municipal terá de explicar por que uma construção tão recente apresenta problemas que normalmente se espera evitar com projeto adequado, execução responsável e fiscalização rigorosa.
O prefeito Marco Franzato, a Secretaria Municipal de Saúde e os setores de Engenharia e Obras têm diante de si a oportunidade — e a responsabilidade — de esclarecer a situação.
É preciso identificar as causas, apurar eventuais responsabilidades e corrigir os defeitos sem impor prejuízo indevido à população.
R$ 1,5 milhão não é dinheiro de prefeito, de secretário ou de empreiteira. É dinheiro público. E dinheiro público exige respeito, transparência e prestação de contas.
A população da Vila 7 não pediu luxo. Pediu uma unidade de saúde funcional, segura e digna.
E uma obra inaugurada há seis meses não deveria provocar a sensação de que já precisa de uma grande reforma.
Espaço para o contraditório
O BSB2 — Bisbilhoteiro coloca seu espaço jornalístico à disposição da Prefeitura Municipal de Cianorte, da Secretaria Municipal de Saúde, dos departamentos responsáveis pela fiscalização da obra e da empresa executora para que apresentem esclarecimentos técnicos e documentos referentes às reclamações.
Até a conclusão desta reportagem, não foram apresentados ao BSB2 laudos técnicos que determinem a origem dos danos fotografados, nem respostas oficiais específicas sobre as reclamações aqui relatadas. Não se afirma, portanto, que eventual responsabilidade por falhas construtivas tenha sido tecnicamente comprovada.
O portal continuará acompanhando os desdobramentos e cobrando respostas sobre a qualidade da obra e as condições de funcionamento da UBS.
Porque obra pública não se mede pelo tamanho do discurso na inauguração.
Mede-se pela qualidade da entrega, pela durabilidade da construção e pelo respeito ao cidadão.
Marcio Nolasco
Analista de Políticas Públicas — ENAP
Editor-chefe | BSB2 — Bisbilhoteiro

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