Sinais de alerta; A Radicalização Política no Sul do Brasil.
A cena política brasileira da última década consolidou um estado de polarização que, embora comum em democracias vibrantes, transbordou para o campo de radicalização ideológica com contornos preocupantes,. Especialmente na região Sul do país, se observa uma perigosa convergência entre fervor eleitoral e a emergência de discursos e atitudes que flertam com o extremismo. Este artigo pretende analisar, e ligar um sinal de alerta, sob a ótica da ciência política e do Direito, a escalada da violência política, o uso de simbologia codificadas e a implementação de táticas de segregação econômica, estabelecendo paralelos históricos necessários para compreensão dos riscos institucionais vigentes.

Dados recentes de monitoramento acadêmico, investigações policiais e do Ministério Público têm apontado para um crescimento no número de células que professam ideologias neonazistas ou neofascistas, ainda que alguns o façam sem a devida consciência da gravidade da contravenção, com uma concentração estatística notável nos estados da região Sul. Nada autoriza interpretar isto como uma característica inerente à população regional, mas como resultado de uma complexa teia de fatores socioculturais, incluindo a apropriação distorcida de pautas de identidade e a exploração de ressentimentos políticos, principalmente em algoritmos de redes sociais.
A segurança jurídica exige que se diferencie o conservadorismo democrático e legítimo da adesão ao extremismo. Contudo, episódios diversos, sob a investigação do MP e da PF revelam que grupos minoritários, porém barulhentos, têm utilizado a polarização como escudo para propagação de discurso de ódio, muitas vezes originadas por políticos que acabam de serem sufragados com louvor nas urnas, e ainda que muitas manifestações desses núcleos ocorram de maneira velada, porém permitindo que a agressividade se manifeste nas interações sociais e na intolerância ao pluralismo.
Um dos sinais mais alarmantes de degradação democrática foi a circulação de listas de boicote e a perseguição contra empresas, empresários e profissionais liberais identificadas com o espectro político da esquerda. Em diversas cidades do interior do Sul, como Maringá e Cianorte, ambas no Paraná, estas listas visam o estrangulamento econômico de cidadãos com base no seu voto, ferindo o princípio constitucionais da liberdade de convicção política.
(Faço um pequeno parêntese para lamentar não poder registrar minha solidariedade à queridos amigos e amigas vítimas desta ação que me faz recordar a Alemanha da década de 30).
Objetivamente, estas práticas têm precedentes históricos na Judenboykott (boicote aos judeus), iniciado em 1933 na Alemanha de Hitler, mesmo admitindo que as motivações originais sejam distintas (antissemitismo lá e intolerância política aqui), porém a prática de “marcar” o inimigo para asfixiá-lo e exclui-lo da vida econômica e social é próprio de regimes totalitários, sempre com o mesmo objetivo; a desumanização dos adversários e a criação de um ambiente de medo que iniba a divergência.
Observamos também na comunicação política os famosos dog whistle (apitos de cachorro), tática que consiste no uso de mensagens sutis e codificadas que parecem inofensivas, mas que possuem significados específicos para grupos extremistas. Para além das saudações históricas de regimes fascistas, o consumo de copos de leite, em referência velada à supremacia branca e a suposta superioridade genética dos arianos, a imagem e semelhança dos “arianos”.
Muito mais que restritas ao campo retórico, ela segue escancarada em instituições de ensino, como o episódio ocorrido na Unicesumar, em Maringá (PR), onde alunos bolsitas e beneficiários do Prouni foram alvos de humilhações e ataques por grupos radicais, quase como um microcosmo da violência política atual, exatamente em um ambiente que deveriam estimular o debate intelectual, substituído pela intolerância ideológica, em ataque direto à dignidade da pessoa humana e aos esforços de inclusão social do país.
Infelizmente, a polarização política atingiu um estágio de radicalização que exige vigilância constante das instituições republicanas, inclusive porque se observa uma rápida transição de táticas de convencimento para ações de perseguição econômica e humilhação social, com evidente corrosão dos valores democráticos.
Urge que cada cidadão se mantenha vigilante e denuncie cada transgressão, além de ser imperativo que o Poder Judiciário atue com firmeza, garantindo que a liberdade de expressão não seja argumento que autorize a prática de crimes de ódio ou ações que atentem contra o Estado de Direito.
A preservação da democracia exige que o conflito de ideias seja saudável, cientes que a tentativa de aniquilação social do adversário é passo inicial do autoritarismo.
As eleições de 2026, seguramente as mais medíocres da história da nossa democracia, foram um triste passo em direção ao abismo moral de uma sociedade que, infelizmente, está normalizando o ódio, aceitando pequenas transgressões que a história aponta como portas abertas para líderes extremistas e recrudescimento da liberdade individual.
Definitivamente não é normal discriminar nordestinos, negros ou petistas, muito menos classificar cada cidadão que fez a legítima escolha de um candidato de direita como extremista porque, pelo menos por enquanto, os radicais e inconsequentes são minoria e se a sociedade perceber que estamos descendo um degrau na escala de dignidade, pode reagir com veemência contra os ensaios de abusos que se repetem por todo o país.
Também para os candidatos vale a regra de que eleições resultam em vitórias ou derrotas e sempre se deve sair maior destas disputas. A hombridade, a ética e o respeito precisam prevalecer para dignificar cada cidadão que compareceu às urnas.

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