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Que falta nesta cidade?

há 4 horas
3 min de leitura

“Que falta nesta cidade?… Verdade.Que mais por sua desonra?… Honra.Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.”Gregório de Matos, Epílogos (séc. XVII)


A eleição acabou. Os carros de som guardaram os alto-falantes, os santinhos amoleceram na sarjeta com a primeira chuva e a conversa da padaria voltou, meio sem graça, ao preço do pão.



Cianorte vive agora esse silêncio. E é nele, muito mais do que no barulho, que se escuta o que de fato aconteceu.


Há mais de trezentos anos, Gregório de Matos olhou para a Bahia do seu tempo e fez a ela uma série de perguntas incômodas. Respondeu a cada uma com uma palavra só, seca como um tapa. Não por acaso ganhou o apelido de Boca do Inferno. O poeta escrevia sobre Salvador, mas qualquer cidade que tenha atravessado uma campanha recente reconhece o retrato.


Nas últimas semanas, a cidade assistiu a uma corrida desenfreada atrás do voto. A seriedade ficou pelo caminho, largada como bagagem pesada demais para quem tinha pressa. Alianças impensáveis foram costuradas de véspera. Adversários de ontem trocaram abraços enquanto aliados antigos trocavam farpas. O vale-tudo se instalou sem pedir licença, porque havia uma cadeira em jogo. E uma cadeira no governo, pelo visto, justifica quase qualquer contorcionismo.


Gregório perguntaria o que faltou. A resposta dele cabe aqui sem ajuste: faltou vergonha. Faltou aquele freio íntimo que faz alguém recuar diante de certas atitudes, mesmo quando ninguém está olhando e, sobretudo, quando todos estão.


As surpresas vieram, é verdade. A urna tem um humor particular, que desmonta previsões e constrange quem já tinha encomendado a festa. Mas a surpresa dura dois ou três dias, e o desgaste fica. Fica nas amizades estremecidas nos grupos de WhatsApp e num cansaço cívico que afasta as pessoas da política justamente quando a cidade mais precisa delas por perto.


E Cianorte precisa. Quem anda por suas ruas com atenção percebe que vivemos de apagar incêndios. Um buraco tapado aqui, uma obra anunciada ali em data conveniente. Alguns focos são combatidos com competência, ninguém nega. O que não se enxerga é o norte. Falta um plano que diga onde queremos estar daqui a vinte anos e que sobreviva à troca de nomes nos gabinetes. Uma cidade que nasceu desenhada com régua e intenção não deveria se acostumar ao improviso.


Começa agora a temporada dos balanços. O discurso já circula nas redes: “fiz isso”, “fiz aquilo”, “trouxe tal recurso”, “inaugurei tal obra”. Listas longas, fotos bem enquadradas, números que impressionam quando lidos em voz alta. Boa parte deve ser verdade. O problema é que a lista responde à pergunta errada.


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A pergunta que fica é mais simples, e bem mais incômoda: a vida de quem melhorou nesta cidade?


A da mãe que espera vaga na saúde? A do jovem que se forma e precisa decidir se fica ou vai embora? A da costureira que pega ônibus até a confecção? A do pequeno comerciante do centro, que conta o movimento nos dedos?


Obra entregue e recurso captado são meios. O resultado mora em outro lugar, na rotina de quem acorda cedo e nunca aparece em foto de inauguração. É ali que um governo deveria ser medido.


Se o velho poeta passasse hoje pela Avenida Brasil, talvez acrescentasse um verso ao seu epílogo. Perguntaria, com a mesma secura de sempre:


Que falta nesta cidade?… Norte.


E a resposta, infelizmente, ainda estaria certa.

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