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Professor e coerência.

há 20 horas
3 min de leitura

“Um professor que sabe o valor do estudo...que ensina.....me deixa muito pensativa sobre essa incoerência de preferência. E olha....vc é um excelente professor”. Estas palavras foram dirigidas a mim, exatamente neste formato, a partir de uma postagem que fiz no meu facebook, em que deixava claro, pela enésima vez, em qual candidato eu iria votar no segundo turno das eleições (que foi aliás, no mesmo em que votei no primeiro turno). Quem escreveu as palavras foi uma pessoa que foi minha aluna na Universidade da Terceira Idade (UNATI), programa da Universidade Estadual de Maringá, que abre espaço para que pessoas com mais de 60 anos possam voltar aos bancos escolares. Essa aluna me cobra uma coerência que eu deveria ter por ser, em sua opinião, um excelente professor; eu perguntei a ela se por coerência ela queria dizer que eu deveria votar no outro candidato, mas não houve resposta. De qualquer forma, fiquei pensando na relação entre ser professor e ser coerente...

 


 Eu, sinceramente, ainda não consegui entender o que ela quis dizer com falta de coerência, pois, para mim, nós não somos seres divididos. Eu sempre falo para meus alunos, especialmente de mestrado e doutorado, e estou falando aqui do ponto de vista das ciências humanas e sociais, que eu não acredito em teoria descolada da vida, ou seja, que, para mim o mesmo que move a pessoa a escolher uma determinada teoria para analisar um determinado objeto de estudo que resultará em uma dissertação ou tese, deve ter repercussão como a pessoa enxerga e se enxerga na realidade cotidiana da vida. Por exemplo, se a pessoa adota uma teoria crítica que busca dar valor aos mais despossuídos na história, ela precisa ser solidária, empática com aquelas pessoas que, por alguma razão, encontram-se em uma posição hierarquicamente inferior à dela. Eu sempre pergunto para os meus alunos quantos sabem o nome da zeladora do bloco onde eles estudam e se eles a cumprimentam sempre que passam por ela. Teoria e vida devem estar, necessariamente, interligadas.

 

Para mim,  ser professor não é diferente do que eu sou na minha vida nos outros espaços onde eu atuo. Por outro lado, talvez num (i)merecido esforço para entender o que a minha aluna octogenária me cobrou, raramente eu falo em sala de aula de minhas preferências políticas ou mesmo ideológicas, somente quando isso acaba se tornando necessário. Mas, tem coisas que, para mim, deveriam denotar valores que se aproximam de uma determinada forma de ver e atuar no mundo, como, por exemplo, o respeito pelos alunos ao preparar uma boa aula. Aliás, já escrevi aqui em outra oportunidade, sobre as qualidades que um bom professor deve ter: saber do que está falando (preparar bem as aulas), saber como transmitir aquele determinado conteúdo (ter a didática necessária para tal) e criar, no que dele depender, um clima favorável para o aprendizado (respeito e humildade perante e para com os alunos). Creio que essas características estão aliadas, ou fazem parte, de uma coerência de vida, pois, se os alunos, em uma sala de aula, estão em uma condição hierárquica inferior ao professor, é exatamente por isso que eles devem ser respeitados. Um professor que seja arrogante, desrespeitoso, dificilmente terá a empatia e a solidariedade como práticas de vida e, portanto, dificilmente se colocará na defesa de propostas políticas mais à esquerda do espectro político, ou se se colocar, será por mero interesse ou tática ou estratégia de poder. O contrário é válido, pois quanto mais sério no exercício de sua docência, quanto mais se fizer entender e quanto mais respeitoso for, mais pratica a empatia e a solidariedade como valores para a vida e, portanto, mais à esquerda estará numa disputa política.

 

Como meus leitores já devem saber, pelos últimos textos que aqui escrevi, eu votei e fiz campanha para o Lula. O fiz, dentre outras coisas, para lutar contra a volta da barbárie em nosso país e pela manutenção do Estado de Direito Republicano e Democrático. Nunca me senti mais coerente com minha profissão. Eu teria sido incoerente se tivesse escolhido o outro candidato, mas aí, posso afirmar que não seria apenas uma voz, mas centenas que me cobrariam, dessa vez com razão, coerência de minha parte. Afinal, a democracia se pratica não só nas eleições, mas no dia a dia, inclusive e, especialmente, em uma sala de aula!

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

1 comentário

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FRANCIELLE GOULART PEREIRA
há 8 horas
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Bom dia professor Célio, muito coerente esse texto, e principalmente a visão de que não somos seres divididos, e que vivemos em uma democracia onde zelamos pelo respeito e empatia.

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