O jovem profissional debanda de Cianorte… e a culpa é sua, empresário
Recentemente, conversando com um empresário da nossa região, tentei fazer o que sempre considero um investimento no futuro local: indicar um jovem talento para uma vaga de estágio. A resposta que recebi, no entanto, foi um balde de água fria:

“Já ajudei muita gente a entrar no mercado e já treinei demais. Hoje eu só contrato nível sênior que use inteligência artificial. A IA vai substituir todos esses juniores.”
A frase ecoa como um atestado de miopia corporativa.
É comum sentar em mesas de reunião ou acompanhar eventos de negócios em Cianorte e ouvir a mesma lamúria repetida à exaustão: "falta mão de obra qualificada na cidade", "o jovem não quer nada com nada", "os talentos vão embora para centros maiores". Mas a pergunta incômoda que ninguém quer fazer em voz alta é: se você fecha as portas para quem está começando, quem vai formar o sênior de amanhã?
A matemática é simples e cruel. Se o mercado corta a base da pirâmide hoje, não haverá profissionais plenos daqui a três anos, tampouco especialistas daqui a sete. A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa de produtividade, mas ela não cria discernimento, cultura de empresa, resiliência ou capacidade de liderança. Quem faz isso são pessoas, e pessoas começam aprendendo.
Cianorte abriga faculdades e forma dezenas de mentes brilhantes todos os anos. Jovens universitários que chegam com uma base teórica fresca, vontade de produzir e a necessidade legítima de transformar livros em prática de mercado. Quando as empresas locais fecham as portas para esse estágio inicial, o recado é direto: “vão embora”. E eles vão. A debandada não é falta de amor à terra natal; é falta de alternativa.
Contratar apenas profissionais seniores traz outro custo que poucos admitem: o sênior já tem seus vícios consolidados, seu método engessado e suas próprias convicções sobre como as coisas devem funcionar. O profissional júnior, por outro lado, é uma folha em branco. Ele traz a flexibilidade necessária para aprender as metodologias específicas da sua empresa, absorver a cultura da sua equipe e crescer sem as amarras de rotinas ultrapassadas.
Antes de reclamar da escassez de profissionais preparados ou culpar o êxodo de jovens talentos, olhe para os seus processos seletivos. Que tal abrir espaço para quem tem fome de aprender com você? A qualificação do mercado cianortense não vai cair do céu: ou ela é construída nas empresas locais, ou continuaremos lamentando ver nossos melhores talentos brilhando no quintal dos outros.

.png)




.png)








Comentários