O homem que se achou invisível
ou de como a ignorância se disfarça de certeza
Por Bruno Oliveira - Diretor da Unipar
Existe uma história verdadeira que parece inventada, e o fato de ser verdadeira é justamente o que a torna útil.
Em 6 de janeiro de 1995, um homem chamado McArthur Wheeler assaltou dois bancos na região de Pittsburgh, à luz do dia, à mão armada, sem qualquer disfarce. Nada de meia na cabeça, nada de boné, nada de máscara. Nada, a não ser o rosto coberto de suco de limão. Wheeler tinha ouvido do comparsa uma teoria irretocável: o suco de limão é usado como tinta invisível, revelada apenas com calor; logo, se o suco torna a tinta invisível, deveria tornar invisível também o rosto de quem o aplicasse.

Antes de sair para o crime, Wheeler fez o que qualquer cientista respeitável faria: testou a hipótese. Cobriu o rosto de suco e tirou uma foto Polaroid. A foto saiu borrada, talvez por erro de câmera, talvez por ele ter apontado torto. Não se via rosto nenhum. Para Wheeler, a ciência tinha falado.
Foi ao banco. Olhou direto para as câmeras de segurança, sorridente, confiante, plenamente visível, e assaltou o caixa. Naquela noite, sua imagem apareceu no jornal das onze. Quando os policiais o confrontaram com o vídeo, mostrando seu rosto nítido, sorrindo para a câmera, Wheeler não teve dúvida sobre onde estava o erro.
"Mas eu passei o suco", disse ele, perplexo.
O suco. O universo é que estava errado.
A história é cômica, mas a graça esconde o mecanismo, e o mecanismo é sério. Ninguém lendo isto se imagina esfregando limão no rosto antes de um crime. A piada de Wheeler, porém, não mora no limão. Mora na certeza. E esse é o ponto que incomoda, porque a certeza equivocada se veste exatamente como a certeza legítima: fala firme, olha nos olhos, apresenta evidência e caminha sem tremer.
Um professor de Cornell chamado David Dunning leu o caso num jornal de Pittsburgh e ficou intrigado. Não pela burrice do assaltante, que é o tipo de coisa que se esquece rápido. O que não o largou foi a tranquilidade do assaltante. Wheeler não hesitou, não fez plano B, não levou nem uma touca reserva. Agiu com a serenidade de quem sabe. Dunning se associou a Justin Kruger, e os dois passaram a estudar, com rigor de laboratório, uma pergunta que o caso do limão tinha formulado sem querer: será que existe gente incompetente demais para perceber a própria incompetência?
A resposta, publicada em 1999, ficou conhecida como efeito Dunning-Kruger. O mecanismo é mais elegante e mais cruel do que parece. A habilidade de fazer bem uma tarefa e a habilidade de avaliar se está fazendo bem são, surpreendentemente, a mesma habilidade. Não são duas coisas separadas, uma técnica e outra crítica. É uma coisa só. Por isso, quem não domina o suficiente para acertar também não domina o suficiente para perceber que errou.
A incompetência carrega um fardo duplo: erra, e depois aplaude o próprio erro, porque o instrumento que deveria soar o alarme é o mesmo instrumento que já estava quebrado.
Imagine um termômetro estragado que serve, ao mesmo tempo, para medir a febre e para verificar se o próprio termômetro funciona. Ele nunca vai acusar defeito nenhum, por definição, porque a avaria e o aparelho que a detectaria são a mesma peça. É esse o retrato de Wheeler diante da Polaroid borrada: não tinha competência fotográfica suficiente para perceber que a culpa era da câmera, então concluiu, com toda a lógica do mundo, que o limão tinha funcionado.
O detalhe mais fino do estudo está na outra ponta da curva. Os mais competentes, descobriram Dunning e Kruger, tendem a subestimar a própria competência, porque, sabendo o quanto o assunto é difícil, presumem que os outros acham igualmente fácil. O resultado é uma inversão silenciosa: o incompetente caminha cheio de certeza, o competente caminha cheio de dúvida, e quem grita mais alto na sala raramente é quem deveria ser ouvido primeiro.
O efeito é democrático. Não escolhe área, não respeita diploma, não poupa ninguém. Aparece toda vez que alguém fecha uma opinião rápido demais e passa a colecionar, sem perceber, apenas as evidências que a confirmam, descartando as que a contradizem. O nome técnico disso é viés de confirmação. O nome honesto é teimosia emoldurada.
Wheeler, a essa altura, já está preso. Mas convém notá-lo mais uma vez: não era louco. Os policiais descartaram delírio e descartaram drogas. Era apenas um homem extraordinariamente equivocado. E esse é o ponto mais desconfortável da história inteira. A loucura a gente identifica de longe. A certeza equivocada não, porque ela se apresenta com a mesma voz, o mesmo olhar e a mesma firmeza da certeza legítima. A diferença entre a convicção e o delírio, vista de fora, é invisível. Vista de dentro, mais ainda.
Há mais de um século, antes de qualquer psicólogo de Cornell, Machado de Assis já tinha desenhado esse abismo com precisão de bisturi. Em O Alienista, o doutor Simão Bacamarte, cientista tão seguro da própria capacidade de definir a loucura, termina internando a cidade inteira de Itaguaí, um morador de cada vez, sempre convencido, sempre metódico, sempre certo. Cada nova internação reforça a teoria em vez de questioná-la. É o mesmo termômetro quebrado, só que fardado de autoridade científica. E o ponto mais assustador do conto não é a loucura da cidade: é a lucidez impecável com que o cientista a diagnostica errado, capítulo após capítulo, sem que uma única dúvida atravesse o caminho.
A intenção desta crônica não é semear medo de opinar. Opinião é ferramenta, e ferramenta guardada enferruja. A intenção é sugerir um hábito mais modesto, e talvez mais útil, que cabe numa pergunta de bolso: antes de agir pela certeza, testei a câmera ou só confiei na foto?
Porque existe uma diferença enorme entre estar certo e estar convicto. Wheeler estava convicto. A câmera de segurança do banco estava certa. E das duas, só uma apareceu no jornal das onze.

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Muito bom texto, Professor Bruno. Hoje, estamos rodeados de “influentes” donos de verdades criadas por eles mesmo! São opiniões rasas e sem fundamento.