O Cordeiro Reina! O trono permanece inabalável
Christina Faggion Vinholo
Teóloga. Especialista em Antigo e Novo Testamento.
Hoje, milhares de brasileiros acordaram alegres, experimentando o gosto da vitória. Outros milhões despertaram entristecidos, carregando o sabor amargo da derrota. Para uns, há motivos para comemorar; para outros, indignação, frustração e perguntas ainda sem respostas.
O país está dividido. As opiniões se confrontam, as acusações se multiplicam e as redes sociais se transformaram em arenas de hostilidade. Famílias estão divididas, amizades foram abaladas e, lamentavelmente, até mesmo dentro da igreja cristã encontramos irmãos tratando uns aos outros como adversários.

Em meio a tudo isso, considero necessário fazer uma reflexão que não nasce de minhas preferências políticas, mas de minhas convicções teológicas.
Tenho minhas opiniões, meus princípios e minhas escolhas. Como qualquer cidadã, exerço minha responsabilidade diante da sociedade. Entretanto, não pretendo defender partidos, candidatos ou resultados eleitorais. Neste momento, minhas preferências políticas não são o centro desta reflexão. Há uma verdade infinitamente maior que precisa ser lembrada, especialmente por aqueles que confessam a fé cristã.
O Cordeiro Reina! E o trono de Deus permanece inabalável!
Como estudante e amante da teologia reformada, encontro nas Escrituras duas verdades inseparáveis: a soberania absoluta de Deus e a responsabilidade moral do ser humano.
Cada cidadão é responsável por suas decisões. Somos chamados a pensar, examinar, discernir e agir segundo nossas convicções. Influências, discursos e interesses políticos podem interferir em nossas escolhas, mas não nos dispensam do dever de buscar a verdade. A responsabilidade humana não desaparece diante das circunstâncias.
Ao mesmo tempo, a história não está entregue ao acaso, aos caprichos dos governantes ou à vontade dos poderosos.
O profeta Daniel declara que Deus “remove reis e estabelece reis” (Daniel 2.21). O salmista afirma que “nos céus, estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmo 103.19).
Essas não são figuras de linguagem destinadas apenas a confortar pessoas religiosas. São declarações acerca de quem Deus é e de como governa sua criação.
A doutrina reformada da providência divina nos ensina que nada acontece fora do governo soberano de Deus. Isso não significa que todas as ações humanas sejam moralmente aprovadas por ele. Deus governa a história sem ser autor do pecado, e os seres humanos continuam responsáveis por seus atos.
O exemplo supremo dessa verdade encontra-se na cruz de Cristo. A maior injustiça cometida na história humana aconteceu segundo o determinado desígnio de Deus, sem que aqueles que crucificaram Jesus fossem inocentados de sua responsabilidade (Atos 2.23).
Se Deus governou soberanamente até mesmo os acontecimentos que conduziram seu Filho à cruz, por que imaginaríamos que os acontecimentos políticos de uma nação poderiam escapar ao seu domínio?
Nenhuma eleição surpreende a Deus. Nenhuma vitória amplia seu poder. Nenhuma derrota ameaça seu trono.
Reconhecer essa verdade, entretanto, não significa abandonar o compromisso com a justiça, a verdade ou a responsabilidade cidadã. A confiança na providência divina jamais deve ser confundida com conformismo diante do mal.
Se existem questionamentos legítimos, que sejam examinados pelas instituições competentes, dentro dos limites da lei e com respeito à ordem. O exercício da cidadania não exige violência, vandalismo ou a demonização daqueles que pensam de maneira diferente.
Aos que celebram, cabe lembrar que a vitória política não lhes concede superioridade moral sobre os derrotados. A alegria de uns não precisa transformar-se em humilhação para outros.
Aos que lamentam, é importante recordar que nenhuma derrota eleitoral significa a derrota dos propósitos eternos de Deus. A tristeza pode ser legítima, assim como a indignação, mas nenhuma delas deve tornar-se justificativa para o ódio.
E a nós, cristãos, cabe uma responsabilidade ainda maior.
O apóstolo Paulo nos exorta a fazer “súplicas, orações, intercessões e ações de graças […] em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1 Timóteo 2.1-2).
Essa orientação não está condicionada à simpatia pelo governante, à concordância com seu programa político ou à identificação com suas convicções.
Orar pelas autoridades não significa endossar suas decisões. Significa obedecer à Palavra de Deus.
Oramos para que governem com justiça, para que sejam contidos em suas inclinações injustas, para que tenham sabedoria e para que a sociedade possa viver com tranquilidade, dignidade e liberdade. Oramos pelo bem comum, não apenas pela realização de nossos interesses.
A oração não muda o caráter nem os propósitos eternos de Deus. Entretanto, é um dos meios que ele mesmo estabeleceu para realizar sua vontade. E, enquanto oramos, também somos transformados. Nossa arrogância é confrontada, nosso orgulho é exposto e aprendemos novamente que não somos senhores da história.
Talvez seja precisamente isso que esteja faltando a tantos cristãos neste momento: menos disposição para vencer discussões e mais disposição para dobrar os joelhos.
É profundamente preocupante observar a facilidade com que preferências políticas têm ocupado, no coração de alguns, um lugar que pertence exclusivamente a Cristo. Quando a lealdade a um líder nos faz desprezar o próximo, justificar injustiças ou abandonar a verdade, precisamos examinar a quem estamos realmente servindo.
Não fomos chamados a idolatrar governantes, tampouco a demonizar aqueles que discordam de nós.
Nossa identidade fundamental não está nas urnas, nos partidos ou nas ideologias. Está em Cristo, a quem pertencemos e diante de quem todos, governantes e governados, um dia prestarão contas.
No quinto capítulo de Apocalipse, João contempla aquele que é digno de abrir o livro e romper seus selos. Ele ouve o anúncio do Leão da tribo de Judá, mas, ao olhar, vê um Cordeiro como tendo sido morto.
O Leão venceu como Cordeiro. E é esse Cordeiro, crucificado, ressurreto e exaltado, que ocupa o centro do governo divino sobre a história.
Essa é a nossa esperança. Não a esperança ingênua de que tudo acontecerá conforme nossos desejos, mas a certeza de que os propósitos de Deus jamais serão frustrados.
O Brasil é uma grande nação, marcada por sua diversidade, suas riquezas, suas contradições e seus desafios. Precisamos de justiça, responsabilidade, honestidade e compromisso com o bem comum. Mas precisamos também recuperar a capacidade de conviver com aqueles que pensam de maneira diferente.
A igreja precisa recordar que sua missão não pode ser reduzida à vitória ou à derrota de um projeto político. Sua vocação é anunciar o Evangelho, testemunhar a verdade, praticar a justiça, amar o próximo e apontar para aquele cujo reino não terá fim.
Que os felizes celebrem sem arrogância. Que os entristecidos lamentem sem perder a esperança. Que os indignados busquem a justiça sem abandonar a mansidão. E que todos nós aprendamos a discordar sem destruir uns aos outros.
É tempo de abandonar a zombaria, silenciar a agressividade, rejeitar a idolatria e voltar nossos olhos para o único trono que verdadeiramente permanece.
Hoje, o Brasil tem vencedores e vencidos nas urnas. Mas a história não termina com uma eleição, e o destino eterno da humanidade não está nas mãos de qualquer governante.
O Cordeiro Reina!
E porque ele reina, podemos orar, trabalhar, perseverar, defender a verdade, praticar a justiça e amar o próximo, sem entregar nosso coração ao medo, ao desespero ou ao ódio.
O trono permanece inabalável. E aquele que nele está assentado continua sendo digno de toda honra, glória e louvor.
Instagram: @chrisvinholo
E-mail: chrisvinholo@gmail.com

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