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CIANORTE NA ROTA DE UM ESQUEMA DE R$ 271 MILHÕES: QUEM ESTÁ POR TRÁS DAS EMPRESAS INVESTIGADAS POR SONEGAÇÃO E LAVAGEM DE DINHEIRO?

há 14 horas
7 min de leitura

BSB2.COM.BR  |  JORNALISMO INVESTIGATIVO  |  04 DE NOVEMBRO DE 2026


Operações do GAECO e da Receita Federal atingem Cianorte e outras 27 cidades de quatro estados. Investigadores apontam empresas de fachada, notas fiscais fictícias, uso de “laranjas” e movimentações financeiras suspeitas. O BSB2 levanta as perguntas que precisam ser respondidas: quais empresas foram alvo em Cianorte, quem são seus verdadeiros proprietários e qual foi a participação delas no suposto esquema?



Reportagem especial | Portal BSB2 - Marcio Nolasco


Cianorte entra no mapa de uma investigação milionária


A cidade de Cianorte, no Noroeste do Paraná, apareceu nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, no centro de uma investigação de grandes proporções envolvendo suspeitas de sonegação fiscal, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.


Duas operações simultâneas, conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público do Paraná, em conjunto com a Receita Federal, atingiram empresas e pessoas investigadas por sua possível participação em uma estrutura financeira e empresarial supostamente organizada para fraudar o recolhimento de impostos.


As operações, denominadas Enxágue — em sua segunda fase — e Catéter, resultaram no cumprimento de 64 mandados de busca e apreensão em 28 municípios do Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


A Justiça também determinou medidas cautelares diversas da prisão contra nove investigados, além de ordens de sequestro e indisponibilidade patrimonial que, somadas, alcançam o valor de R$ 271.481.696,96.


A ofensiva e a inclusão de Cianorte entre as cidades alcançadas foram noticiadas pela Tribuna de Cianorte e em outras coberturas publicadas nesta quarta-feira.


O montante, porém, exige uma distinção importante: trata-se do limite global das medidas judiciais de bloqueio e sequestro patrimonial nas duas investigações, e não de dinheiro comprovadamente apreendido em Cianorte ou de prejuízo definitivamente reconhecido pela Justiça.



Como funcionaria a engrenagem da fraude?


O aspecto mais preocupante revelado pelas investigações não é apenas o volume financeiro envolvido. É a sofisticação do mecanismo que teria sido utilizado para transformar operações comerciais aparentemente regulares em instrumentos de sonegação e ocultação de recursos.


Segundo as informações divulgadas, o suposto esquema concentrava-se na comercialização de subprodutos de origem animal, principalmente sebo e gordura, matérias-primas utilizadas em setores como o biodiesel e a indústria de curtumes.


A investigação descreve uma estrutura na qual fornecedores reais comercializariam mercadorias, enquanto empresas de fachada seriam inseridas artificialmente nas operações fiscais.


Essas empresas, chamadas de noteiras, emitiriam documentos que não correspondiam ao percurso comercial efetivo dos produtos.


O objetivo seria criar créditos indevidos de ICMS para determinados compradores, deixando o imposto não recolhido sob responsabilidade de empresas sem patrimônio suficiente para quitar a dívida.


A estrutura investigada ainda envolveria intermediários financeiros e sociedades utilizadas para movimentação ou ocultação patrimonial.


O caminho suspeito do dinheiro

O detalhe que mais chama a atenção: empresas investigadas há anos


Uma das revelações mais graves da cobertura é que o núcleo principal do grupo já teria sido alvo de fiscalizações da Receita Federal e de oito inquéritos da Polícia Federal entre 2009 e 2020.


Segundo os relatos sobre a investigação, quando determinadas empresas eram identificadas pelas autoridades, outras pessoas jurídicas seriam criadas para dar continuidade às operações.


A Receita Federal teria identificado pelo menos 35 empresas sem existência de fato vinculadas à estrutura investigada.


Esse histórico provoca questionamentos inevitáveis.


Como estruturas empresariais suspeitas conseguem continuar operando durante tantos anos? Quais mecanismos de fiscalização falharam? Quem são os beneficiários econômicos que permaneceram por trás dessas empresas?


A existência de investigações anteriores não significa, por si só, que todas as pessoas atualmente investigadas tenham participado de irregularidades durante todo esse período. Mas reforça a importância de esclarecer a continuidade e os vínculos do grupo.


Fundos de investimento: a possível ligação entre as duas operações


Outro ponto relevante é a conexão financeira entre as operações Enxágue e Catéter.


Embora sejam investigações autônomas, os investigadores identificaram vínculos envolvendo Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs, administrados e geridos pelas mesmas estruturas financeiras.


Esses fundos são mecanismos legais do mercado financeiro, normalmente utilizados para adquirir direitos de recebimento, como duplicatas e outros créditos comerciais.


Entretanto, a suspeita é que determinados fundos tenham sido utilizados para negociar títulos sem lastro em operações comerciais reais, permitindo movimentações de valores e dificultando a identificação de sua origem.


Na Operação Catéter, a Justiça autorizou medidas que também alcançam ativos de fundos e securitizadoras investigados.


É fundamental ressaltar que a utilização de um FIDC não constitui irregularidade por si só. O que está sob investigação são operações específicas, seus beneficiários e a eventual utilização fraudulenta dessas estruturas.


Cianorte: quem são os investigados e onde ocorreram as buscas?


É neste ponto que a investigação ganha importância especial para a população de Cianorte.


A presença do município na relação das cidades alcançadas pelas operações está confirmada. Entretanto, as informações públicas consultadas pelo BSB2 até o fechamento desta matéria não permitem identificar, de maneira independente e segura, os nomes das empresas locais, seus proprietários ou todos os endereços envolvidos.


Também não foi possível estabelecer se os alvos em Cianorte são apontados como integrantes do núcleo de comando, fornecedores, compradores, intermediários financeiros ou pessoas relacionadas a outras etapas do esquema.


Estar entre os alvos de um mandado de busca não equivale a uma condenação criminal.


Por isso, não seria responsável associar nomes de empresários ou estabelecimentos comerciais de Cianorte às suspeitas sem documentação suficiente.


Mas a ausência dessas informações abre uma frente legítima de cobrança jornalística.


A sociedade tem interesse em saber se existem empresas locais efetivamente envolvidas, qual seria sua participação e se há débitos tributários atribuídos a operações realizadas na região.


Patrimônio milionário sob intervenção judicial


A distribuição dos limites de bloqueio patrimonial também revela a dimensão das investigações.


Operação

Limite judicial

Enxágue — 2ª fase

R$ 143.390.934,40

Catéter

R$ 128.090.762,56

TOTAL

R$ 271.481.696,96

Na Operação Catéter, as medidas informadas incluem mais de 30 imóveis, 79 veículos e uma embarcação, além de ativos financeiros e participações societárias.


O patrimônio alcançado envolve diferentes modalidades de bens, como residências, áreas rurais e terrenos em condomínios.


Essas medidas têm caráter cautelar e buscam preservar patrimônio para eventual recuperação de valores e outras consequências legais, conforme o resultado dos processos.


Ainda não há demonstração de que esses bens estejam situados em Cianorte.


As dez perguntas que o BSB2 considera essenciais


Diante da gravidade das informações, o Portal BSB2 entende que o GAECO, o Ministério Público e a Receita Federal devem esclarecer, respeitados os limites legais de sigilo e a preservação das investigações:


1. Quantos mandados judiciais foram efetivamente cumpridos em Cianorte e em quais tipos de estabelecimentos?


2. Quantas empresas sediadas ou com atuação no município estão formalmente sob investigação?


3. Qual é a atividade econômica das empresas locais alcançadas e qual seria sua participação nos fatos apurados?


4. Foram apreendidos documentos contábeis, equipamentos eletrônicos, valores ou outros materiais em Cianorte?


5. Existem empresários, administradores ou intermediários financeiros da cidade submetidos a medidas cautelares?


6. Qual é o valor estimado dos débitos tributários especificamente relacionados às operações identificadas no município?


7. Alguma das empresas investigadas mantém ou manteve relações comerciais com órgãos públicos locais? Caso exista vínculo, ele possui relevância para a investigação?


8. Os fundos e as empresas de intermediação financeira investigados mantiveram operações com pessoas jurídicas de Cianorte?


9. As empresas locais já haviam sido objeto de fiscalizações tributárias ou investigações anteriores?


10. Quais informações poderão ser divulgadas oficialmente à população sem comprometer as diligências em andamento?


Essas são perguntas jornalísticas a serem encaminhadas aos órgãos competentes, e não constatações de vínculos ou irregularidades adicionais.


A conta da sonegação não desaparece: ela recai sobre a sociedade


A sonegação tributária não representa apenas um conflito entre empresas e o Fisco.


Quando recursos legalmente devidos deixam de ingressar nos cofres públicos, a capacidade de financiamento de políticas públicas pode ser prejudicada.


O ICMS é uma das principais receitas estaduais, com parcela constitucionalmente destinada aos municípios. Portanto, práticas de sonegação em grande escala têm potencial para afetar recursos públicos.


Isso não significa que os R$ 271 milhões citados na investigação seriam destinados diretamente à saúde, à educação ou à infraestrutura de Cianorte. Tampouco é possível calcular, com os dados disponíveis, qualquer perda municipal específica decorrente do esquema investigado.


Mas existe uma questão que ultrapassa os limites da operação policial: enquanto empresas cumprem regularmente suas obrigações tributárias, estruturas fraudulentas podem conquistar vantagens competitivas indevidas e prejudicar a concorrência.


O empresário que paga impostos, mantém empregos e respeita as regras não pode ser colocado em desvantagem diante de práticas ilegais.


O que ainda precisa ser descoberto


A operação desta quarta-feira representa uma etapa relevante das investigações, mas não encerra o trabalho de identificação dos possíveis responsáveis.


A análise do material apreendido, o rastreamento das movimentações financeiras e a identificação dos beneficiários finais das operações serão determinantes para esclarecer a estrutura investigada.


Para Cianorte, permanece uma questão central: qual é a real dimensão da participação de empresas ou pessoas ligadas ao município nesse possível esquema milionário?


A resposta dependerá de informações oficiais, documentos, diligências complementares e, quando cabível, da manifestação das defesas dos investigados.


O BSB2 considera essencial que eventuais responsabilidades sejam individualizadas, sem generalizações que atinjam injustamente o setor empresarial local.


Conclusão: não basta saber que Cianorte entrou na operação. É preciso esclarecer por quê.


Uma investigação que alcança 28 municípios, envolve suspeitas de utilização de empresas fictícias e provoca decisões judiciais sobre mais de R$ 271 milhões em bens e valores merece acompanhamento público rigoroso.


Cianorte não pode ser tratada apenas como mais um nome em uma extensa lista de cidades.


É necessário compreender a natureza das diligências realizadas no município, as atividades econômicas relacionadas aos alvos e as consequências que o avanço das investigações poderá revelar.


É igualmente indispensável respeitar o devido processo legal, o direito de defesa e a presunção de inocência.


O compromisso do jornalismo investigativo não é produzir culpados antecipadamente. É buscar documentos, confrontar versões, exigir esclarecimentos e informar aquilo que efetivamente pode ser demonstrado.


A pergunta que fica é direta: quem operava, quem se beneficiava e qual era o verdadeiro papel de Cianorte nessa engrenagem investigada?


São respostas que a sociedade tem o direito de conhecer, dentro dos limites legais.


Nota editorial: Os questionamentos apresentados não representam respostas obtidas das autoridades. O espaço permanece aberto para manifestações oficiais e esclarecimentos das pessoas ou empresas eventualmente identificadas no curso das investigações.


Portal BSB2 — Informação, investigação e compromisso com a sociedade.

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