A lista das empresas petistas e o incêndio que as próprias empresas espalharam
Esta semana, grupos de WhatsApp e redes sociais de Cianorte foram tomados por mais um daqueles episódios que misturam polarização tóxica e total desconexão com a realidade de mercado: uma lista apontando supostas “empresas petistas” que teriam votado no Lula, sugerindo um boicote comercial aos negócios locais.

Antes de falar de marketing, é preciso falar de bom senso. Tentar instaurar um apartheid político no comércio de uma cidade do nosso porte é um tiro no próprio pé da economia local. O dinheiro que circula no caixa da padaria, da oficina ou da loja de roupas não tem ideologia; ele paga salários, mantém famílias cianortenses e gira a roda da cidade.
Claro, quando uma marca decide atrelar sua imagem de forma explícita a causas ou pautas progressistas, como vimos com campanhas das Havaianas, o risco de rejeição por parte de uma fatia do público de oposição é inerente ao jogo. Mas tentar perseguir negócios de bairro por boatos de bastidor é apenas apequenar o ambiente de negócios.
Porém, o ponto que mais me chamou a atenção como profissional da área não foi a existência da lista em si, afinal a internet sempre produzirá ruído, mas a reação das empresas afetadas.
Nas minhas aulas de gestão de crise, há uma regra básica que repito com frequência: nunca use gasolina para tentar apagar um princípio de incêndio. Em comunicação, isso tem nome e sobrenome: Efeito Streisand, o fenômeno em que a tentativa de censurar, desmentir ou abafar uma informação acaba sendo justamente o motivo pelo qual ela se torna conhecida por todo mundo.
E foi exatamente o que aconteceu por aqui.
Eu, por exemplo, sequer sabia da existência de tal lista. Descobri justamente porque várias empresas correram para o Instagram para publicar notas oficiais de repúdio, esclarecimento e retratação.
O resultado prático? Centenas, talvez milhares de clientes que não tinham a menor ideia do boato de repente pararam a rolagem do feed e pensaram: “Que lista é essa? Quem mais está nela?”. A fofoca, que estava restrita a bolhas de grupos fechados de conversa, foi promovida à praça pública com holofotes institucionais.
Uma crise de reputação não se combate com pânico. Antes de soltar uma nota oficial de peito aberto na página principal do seu negócio, é preciso avaliar o alcance real do problema, responder no canal onde o fogo começou (se o boato está restrito ao WhatsApp, o esclarecimento deve ser pontual e contido lá) e, acima de tudo, não dar palco para o que ainda é apenas faísca de bastidor.
No fim das contas, a lição que fica para o empresariado local é dupla: o mercado não ganha nada dividindo a cidade entre "nós contra eles", e a sua comunicação não pode ser a lenha que mantém a fogueira dos outros acesa.

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